Crônica

Eu Odeio Escrever

Eu odeio muita coisa. Algumas coisas de forma desproporcional, como talheres caindo no chão enquanto eu estou comendo. A interrupção da minha refeição e a ideia dos resquícios de comida no talher absorvendo a sujeira do chão são os principais motivos que fizeram o som do metal despencando se tornar algo tão irritante que, mesmo que não seja o meu talher ou eu nem esteja comendo, minhas mãos se fecham em punhos e meus dentes ficam cerrados automaticamente. E nas muitas vezes em que realmente são os meus talheres a cair, eu considero enfiar a faca no meu pescoço antes de pensar em trocá-la por uma limpa.

Há inúmeros outros ódios inerentes ao meu ser, com intensidades e lógicas variantes: histórias ambientadas em cenários de RPG, acusações falsas de que estou mentindo, meu amigo Gustavo Boxa, fones de ouvido que só funcionam de um lado, pessoas que não permitem que tirem seus celulares da tomada enquanto estão carregando porque vai “estragar a bateria”, entre outras desgraças. Só que o ódio que mais me frustra é, sem dúvida, meu ódio pela escrita. Não falo apenas do ato de escrever, mas a necessidade de escrever – e escrever bem – que eu sinto diariamente.

Eu não sou um escritor particularmente talentoso, embora esteja acima da média da maioria da população. Meu vocabulário não é vasto ou elaborado e meu processo não é rápido em comparação com os profissionais; não consigo ser sucinto, tampouco atinjo a verborragia dos textos intermináveis de grandes escritores. Mesmo assim, esta, provavelmente, é minha melhor forma de comunicação. Sempre sonhei em ter talentos em áreas mais extravagantes como desenho, oratória ou música, mas sempre me voltava para escrita quando queria transmitir uma ideia – diabos, estou escrevendo nesse momento sobre como eu odeio escrever.

Nunca consegui saber ao certo o que me trouxe para essa armadilha. Talvez se eu tivesse começado a desenhar minhas ideias no passado, em vez de simplesmente escrever, hoje eu seria um grande ilustrador. Minha aposta mais confiante para explicar este erro é a pura e simples preguiça, pois desenhar requer esforço físico direto – não se pode treinar ilustrações sem ter um papel e um lápis na mão – e com a escrita não é exatamente assim. Sim, o mandamento primordial para qualquer escritor decente sempre é “Escreva”, mas boa parte do trabalho de um mestre das palavras é observar o mundo para poder descrevê-lo. Pensar, minha atividade preferida, já serve como uma espécie de treinamento para o escritor; imaginar metáforas, tentar descrever o indescritível, questionar o que nos é dito e como é dito, etc.

É isto que me trouxe até aqui: Eu adoro esta parte que ocorre dentro da minha cabeça e preciso fazer algo com minhas ideias e pensamentos, e e escrever se tornou minha válvula de escape. Com o perdão da analogia escatológica, se expelir minhas ideias fosse como defecar, a escrita seria meu ânus. O único problema é que eu estou com um caso forte de hemorroidas.

(Já estou arrependido desta metáfora, então, irei modificá-la – mas não vou apagá-la porque seria injusto com o fluxo de consciência que é este texto.)

Minha relação com a escrita é parecida com minha relação com lavar louça. Eu não detesto lavar a louça, não é uma tarefa que me irrita enquanto eu faço, da mesma forma que não estou irritado escrevendo agora. O que me irrita em relação a louça suja é ter de lavá-la, saber que, caso eu não o faça, logo não haverão mais louças para serem usadas. É como ser escravo de regras que eu aceitei, estar preso a um contrato que assinei. Não seria tão difícil usar apenas pratos, copos e talheres descartáveis – seria, inclusive, o motivo perfeito para nunca mais juntar talheres e meu chão estaria coberto de garfos e facas de plástico – ou simplesmente comprar uma máquina de lavar louça. Mesmo assim, não seria a mesma sensação. E eu quero essa sensação.

A verdade, que já deve estar clara a essa altura, é que eu amo e odeio escrever pelo mesmo motivo: Eu preciso fazê-lo. Ter uma ideia e vê-la pronta são duas sensações muito satisfatórias, mas isto depende completamente do todo o processo que está entre essas duas etapas e, embora processos já sejam geralmente desagradáveis, o processo de escrita está entre os mais frustrantes. Trata-se de uma conversa onde o interlocutor é invisível e que despende atenção absoluta de quem escreve; algo que revela a analogia coprológica muito mais coerente do que a da louça, já que esta última não demanda uma concentração tão restrita.

Além de tudo isso, existem as questões práticas. Primeiro, a leitura não é um prazer comum do público geral e tornou-se quase uma tarefa, e me incluo nisso com minhas poucas dezenas de livros lidos na vida. Então, além do interlocutor ser invisível, há sempre a chance dele ser inexistente. Depois, a necessidade de escrever bem, o que envolve muita leitura, estudo e – suspiro – revisão; e eu confesso, envergonhado, que algumas vezes pulo ou negligencio estes passos – me apaixonei pela escrita por preguiça, afinal.

E a pior parte é esta. Terminar o texto e tentar entender o valor do que foi escrito. Por um lado, consegui, de uma forma ou de outra, tirar uma ideia da cabeça e produzi algo para o mundo; por outro, apenas descrevi meus pensamentos pessoais, que talvez só importem para mim, da maneira mais fácil que encontrei, sem nenhum tipo de planejamento ou estruturação digna de nota. Existem algumas ocasiões em que isso é recompensador, com encerramentos inspirados que fecham o texto como um círculo perfeito, recuperam alguma ideia jogada ao longo do texto para deixar o hipotético leitor com uma sensação de completude. Mas não é o caso deste. Este texto terminará com essa metalinguagem preguiçosa.

Preguiçosa… Até que não é um final tão incoerente assim. Eu falei de preguiça ao longo do texto, afinal.

Olha só, por isso que eu amo escrever.

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