Crônica

Às Vezes Eu Finjo Ser Cego

Todos pensamos, sentimos e fazemos coisas que são só nossas. Coisas só fazem sentido dentro da nossa própria dimensão interna. Claro, talvez outros dividam ideias e sensações conosco – e toda a frase que começa com “só eu que” está fadada a prepotência. Mesmo assim, independente de dividirmos experiências semelhantes, o modo como interpretamos e justificamos elas em nossas mentes é único, e há grandes chances de muitas destas justificativas serem confusas, ou até incompreensíveis, para nossos semelhantes. Por exemplo, eu gosto de fingir que sou cego de vez em quando.

Explicar de onde isso veio e porque eu faço é tentar explicar objetivamente um processo subjetivo – felizmente, este é o papel da escrita. Cegueira, além de uma deficiência, é um conceito simbólico. Seres humanos sempre foram muito visuais e isto tornou nosso mundo muito baseado em visibilidade. Cores, formas, tamanhos e outros elementos visuais são vitais para a experiência humana “normal”, levando a sociedade a criar, destruir, admirar e discriminar baseada nisso. Ver e distinguir o que vemos não é só uma das nossas maiores habilidades, mas também uma particularidade intrínseca ao ser-humano.

Podemos ouvir diversas teorias perfeitamente embasadas sobre um fato, mas apenas aceitamos estas como verdade quando podemos ver. Mesmo que a prova seja cabal, não há o verdadeira peso enquanto não esteja diante de nossos olhos. O menino refugiado da Síria que foi fotografado morto na praia nos mostrou visualmente o terror da guerra e trouxe uma compreensão mais ampla para o problema dos refugiados, assim como inúmeras outras fotos famosas que mudaram a história. Por esse motivo que Carl Sagan usou uma fotografia tirada do espaço para pautar seu discurso sobre o pálido ponto azul em que vivemos – e talvez por isso que eventos que não podem ser resumidos em uma imagem, como aquecimento global, enfrentam tanta resistência em serem aceitos como fatos.

Ver é saber.

Meu interesse pela cegueira não veio desta abstração, porém. A verdadeira causa foi, se minha memória está correta, a cegueira literal em diversos desenhos da minha infância. Grandes guerreiros cegos sempre me fascinaram, pois revelavam uma maneira diferente de experimentar a vida – ou de meter a porrada nos vilões  – e me apresentavam a ideia de que o mundo não é apenas o que é, mas como o experimentamos. Shiryu, Toph, Demolidor, Kenshi e, vou confessar, Jatobá da novela América (ele não era muito de lutar, mas tinha um cachorro bem da hora) me empolgavam quando entravam em cena porque eles sentiam o mundo ao seu redor de forma diferente e demonstravam isso em suas ações.

Então, pelo mesmo motivo que as vezes eu tento usar a mão esquerda, mesmo sendo destro, eu comecei a treinar para caso algum dia eu precisasse lidar com uma vida sem visão. Com o tempo, percebi que era uma experiência bem mais divertida do que útil. Diferente de deficientes visuais que perderam sua visão para sempre, eu poderia desativar e ativar de volta a minha visão, atravessando a fronteira das formas de experimentar o mundo livremente. Assim, comecei a tentar ir no banheiro durante a noite sem ligar as luzes, tomar banho de olhos fechados e tentar sentir a textura das coisas em vez de apenas observá-las. Isso me revelou algumas noções interessantes.

Primeiro, o óbvio: A visão nos entorpece diariamente, nos faz esquecer de sentir de outras formas. Os sons se tornam ruído branco, o toque é raro e os cheiros só se revelam nos extremos – o paladar ainda é potente porque, afinal, comida é coisa séria. Fechar os olhos, embora seja um simbolismo metafórico para ignorar a realidade, pode ser muito proveitoso para entendermos o mundo por um novo ponto de vista. E o mais importante, essa compreensão expandida não vem apenas enquanto estamos na escuridão de nossas pálpebras.

A percepção mais interessante que tive foi abrir os olhos depois de um longo tempo de cegueira deliberada. Há muita verdade na ideia de que só percebemos plenamente o valor de algo quando perdemos; e experimentar o mundo visível depois de escondê-lo da visão é fascinante. Quando fechamos os olhos e tentamos agir, precisamos reconstruir o que há ao nosso redor dentro da mente. Isto é, lembrar o tamanho dos ambientes, compreender a distância entre as coisas e seus formatos, além de, mesmo que involuntariamente, imaginarmos também as cores, a luminosidade e todos os elementos visuais que estamos acostumados a simplesmente ver.

Experimentando na prática algo parecido com a teoria dos dois mundos de Platão: precisamos tentar recriar o mundo dos sentidos em nossa mente para interagir com ele da melhor forma possível – isso é, não derrubar o sabonete no banho porque encontrar ele no chão do box de olhos fechados é uma tarefa e tanto – mas tudo que conseguimos é uma projeção de realidade cheia de falhas, uma espécie de mundo das ideias. Isto sempre ficou muito claro quando eu finalmente voltava a enxergar – por trás dos meus olhos vendados, o ambiente sempre parecia mais escuro ou mais claro, os espaços muito maiores e, de alguma forma, tudo parecia mais bonito. Claro que as coisas na minha cabeça tinham formatos ideais – eu nunca imaginei o sabonete com a superfície amassada pelas inúmeras quedas ou com pelos humanos grudados – só que a realidade e suas imperfeições naturais ganhavam um tom fantástico quando (re)reveladas, como se o mundo em si nunca pudesse ser plenamente imaginado em todos os seus detalhes complexos.

E o mais interessante: este fascínio pode existir até mesmo com a visão, pois mesmo com ela nós ainda não conseguimos absorver o universo em sua completude. Não só não compreendemos eventos que duram milhões de anos ou milésimos de segundos, mas sequer conseguimos distinguir todas as cores que nos cercam – basta notar que abelhas enxergam mais que o dobro de cores do que humanos – e isto pode ser traduzido para temas mais mundanos, e mais úteis, como relações interpessoais.

Eu acredito que cada pessoa seja um universo de proporções semelhantes a este em que vivemos, cheias de complexidades e particularidades e quando nos relacionamos com alguém, seja a menor das interações, experimentamos o universo do outro e, enquanto não nos aproximamos o suficiente, permanecemos com os olhos vendados. Em uma era onde conexão se tornou primeiro um termo tecnológico e depois um sinônimo de vínculo, a artificialidade do contato interpessoal, exemplificado pelos chats, cria relações onde todos os lados estão vendados – e isto está longe de ser um desastre social como alguns afirmam, muito pelo contrário. Da mesma forma que brincar de cego pode proporcionar novos tipos de interações e interpretações com o mundo, o contato artificial pode trazer novas formas de se conectar com pessoas, permitindo que tom de voz, expressões corporais ou aparência física não se tornem barreiras ou distrações para o intelecto e outros elementos internos do interlocutor.

O problema da conexão artificial está quando esta se torna a única forma de conexão – como ficar de olhos vendados para sempre. Nesse sentido, encarar alguém pessoalmente é como abrir os olhos e experimentar algo de uma maneira completamente nova e particular, abrindo uma nova seção do universo que é cada indivíduo. Estes indivíduos, entretanto, são tão vastos e incompreensíveis quanto nossa realidade e tentar entendê-los por completo é uma tarefa tão provável quanto alcançar os limites do universo. O mais provável é que para sempre só possamos vislumbrar, nunca contemplando em absoluto o que o outro é, o que ele ou ela pensa, sente e faz. Ainda assim, não há experiência mais fascinante do que tentar.

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