Crônica

Lidar com eros

Há uma arte japonesa chamada Kintsugi; consiste em consertar objetos de cerâmica com uma mistura que leva ouro e preenche as fissuras com linhas douradas. A filosofia por trás desta arte é simples: O erro é parte de um processo de evolução, desde que esteja disposto a lidar com ele.

Eu participo de podcasts frequentemente, criados e publicados pelo site AoQuadrado (ouça). Numa explicação rápida, podcasts são conversas gravadas e editadas para entreter ou informar os ouvintes. Durante uma gravação, aconteceu algo simples que me trouxe muito o que pensar. Falávamos sobre algum assunto bastante trivial, quando fiz um comentário que pareceu errado – preconceituoso, no máximo, e polêmico, no mínimo – aos olhos dos meus interlocutores e o comentário acabou sendo cortado na edição.

Não vou, aqui, repetir o comentário ou reprovar a edição – eu compreendi e até concordei que poderia ser uma polêmica desnecessária e que desviaria a atenção do tema, que pouco tinha a ver com o comentário em si. Mesmo assim, foi algo que me gerou um conflito interno. Deveríamos apagar nossos erros, quando nos dada a oportunidade? Mais, deveríamos evitar algo pela possibilidade de estarmos errados ou pelo medo de críticas, reprovações ou ofensas?

Aparentemente, poucos se pergutam isso na intenet. Afirmações estúpidas online são regra, afinal. Elas vêm de usuários com imagens minúsculas como avatares, nomes sem sentido e a mesma fonte neutra no texto. Estes elementos, e a frequência deles, planifica os comentários destes usuários sem rosto, sem histórico e sem contexto. Mensagem e mensageiro se únem de forma tão homogênea, na maioria das vezes, que a opinião expressa numa única frase se torna uma filosofia de vida para o personagem que criamos na nossa cabeça. O pior: muitas vezes, o próprio usuário que deu a opinião abraça esta percepção simplista.

Assim, quando um comentário é proferido e alguém discorda de forma convicta, agressiva ou não, aquele que proferiu abraça sua opinião como parte dele, fundindo-se com suas ideias exatamente como aquele que critica faria. Cria-se, assim, uma arrogância que leva o indivíduo a se ver como um guerreiro que deve lutar até a morte em nome daquela afirmação pouco refletida e possivelmente superficial. O interlocutor toma a mesma posição, mas do lado oposto, e está posto um conflito que deveria ser de pessoas usando suas palavras para transmitir ideias, mas que, na verdade, é de pessoas presas por suas palavras escritas ou faladas, decididas em não aceitar seus erros.

Graças a esse fenômeno, qualquer comentário público na rede mundial não pode ser frívolo, mas absolutamente convicto e responsável, pois, pelo que se percebe, letras escritas e frases proferidas por aqui são como escrituras entalhadas em pedra, imutáveis, além de revelar a verdadeira identidade do mensageiro. Errar é um perigo que se deve evitar ao máximo nesta terra onde um comentário irônico num tweet aleatório pode acabar com a sua vida.

O caminho que encontramos para fugir disso é ocultar os erros, dos mais terríveis aos mais bobos. Usamos corretores ortográficos para evitar pequenos defeitos na digitação – tudo bem que ele mude “mao” para “mal”, pelo menos ninguém vai saber que esqueci do til – e opiniões sobre assuntos mais sérios são guardadas sob o pretexto de “evitar polêmica”. Isto muitas vezes é visto como humildade, uma compreensão dos limites do conhecimento do indivíduo, que não quer pisar num território que não domina completamente – e é um pensamento bem mais antigo que a internet, visto o notório “política e religião não se discute”.

A verdade é que o que falta é a verdadeira humildade, não esta artificial que existe apenas para manter ideias intáctas sob uma armadura de dogmas inquestináveis. É precisa uma humildade sincera para aceitar os erros cometidos; para entender que ideias não moldam o seu caráter, mas o contrário; e, principalmente, para se deixar errar e moldar-se pelo aprendizado que ele traz.

Embora muitos possam estar fazendo um favor aos olhos e ouvidos alheios ao não expôr suas ideias absurdas, isto danifica uma das melhores qualidades desta ferramenta incrível: a liberdade. Liberdade para falar, que deveria vir acompanhada da responsabilidade de ouvir e aprender com as oposições.

Soa utópico, claro, mas vale a tentativa. Se estivermos dispostos a ouvir opiniões contrárias e aceitá-las, sem perder totalmente nossa convicção, talvez possamos alcançar o verdadeiro potencial dos conflitos ideológicos que pipocam nos comentários de sites e blogs. Para isto, precisamos também saber repreender os erros alheios, evitar agressividade e demonização do outro, mantendo sempre em mente que certo e errado não está definido em detalhes em nenhum livro de regras, se trata de um conceito maleável e cheio de subjetividade.


Este texto não foi revisado, obviamente. 

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