Conto

Quarto na Sexta

O quarto era pequeno. Talvez não desde a planta, mas agora, com a mobília, não parecia um bom espaço para fazer exercícios físicos. Da janela aberta, era possível ver outras duas janelas, igualmente de alumínio e devidamente envelhecidas e amassadas. Ainda refletiam bem a luz, mas nada de particularmente agradável vinha delas. Os sons, inclusive, eram geralmente desagradáveis. Latidos de cachorros, que pareciam desesperados por liberdade, brigas familiares, louça batendo, televisões e músicas populares – mais de uma por vez nos piores dias. O dono do quarto sabia revidar e constantemente colocava suas próprias músicas altas, muito menos populares, e se deleitava em pensar na irritação que estava gerando, sentindo quase vontade de dançar. Não o fazia, basicamente por medo de se empolgar e bater o joelho na cama ou o cotovelo na escrivaninha.

Esta escrivaninha era a mais nova aquisição: era alta, marrom com gavetas e portas brancas, cheia de sessões de tamanhos diferentes, firme e de aparência sóbria; só não era nova. Tinha bolhas de umidade na mesa, arranhões de gato na base e a tinta parecia descascar cada dia mais. Iria durar, o dono tinha certeza, já que foi ele mesmo que a montou, sentindo-se másculo e confiante ao girar cada parafuso. O trabalho, embora simples, foi tão intenso que imaginar este trabalho sendo desfeito pelo tempo era doloroso, criando rapidamente uma forte conexão sentimental com o móvel. Não tinha pó e os gatos da casa eram proibidos de se aproximar dele – não apenas pela conservação, mas porque a escrivaninha se tornou o epicentro da vida e da identidade do seu dono. Nas estantes superiores, livros e quadrinhos precisamente selecionados eram dispostos: apenas os lidos até o fim e apreciados profundamente – os vergonhosos ou incompletos ficavam em uma sessão com porta, sempre fechada. Em frente aos livros, protegendo-os como sentinelas, bonecos – não confundir com action figures, pois estes eram brinquedos de criança e o mais caro custou quinze reais em uma história divertidíssima envolvendo uma etiqueta manchada e um 2 que parecia muito um 1, ou vice-versa.

A escrivaninha ficava na parede oposta a porta, entre o guarda-roupas e um gaveteiro. O primeiro tinha dois andares, com dois pares de portas, e um colchão velho que tentava, sem sucesso, se esconder entre ele e a parede. Do lado direito, bem próximo a janela, havia o gaveteiro. Se móveis tivessem sentimentos, este seria melancólico. Veio na mudança da casa anterior e sempre foi muito útil. Com sua cor clara, meio amarelada, era um objeto agradável quando chegou na família – também não-novo -, mas suas gavetas desnivelaram no caminhão e sua parte superior ficou tão sobrecarregada que quebrou em um dos lados e se transformou em uma rampa. Era de se esperar, sua utilidade foi levada ao limite, com todos os livros e bonecos, que hoje repousam com espaço na escrivaninha, tendo morado sobre ele por anos, além de perfumes, desodorantes, notebooks, ventiladores e alguns papéis velhos. Se ele tivesse consciência, saberia que só continua sob o teto do quarto pela dificuldade que seria esvaziá-lo e encontrar um substituto a altura, que resista sofrer o mesmo que ele.

Na parede oposta, ao lado da porta, fica a cama. De solteiro e com muitas memórias, boas e ruins. Nunca esteve, em toda sua existência recente, arrumada, mas sempre está com um cobertor embolado e um travesseiro fino repousando sobre ela, seja no mais quente dia do verão ou mais frio dia do inverno. Quando está vazia, parece tão triste quanto o gaveteiro. Sobre ela, na parede, dois desenhos enquadrados, comprados de dois artistas desconhecidos em um evento qualquer que reuniu vários artistas igualmente desconhecidos.

Em frente a porta, há um cabideiro, com casacos e bolsas e um chapéu no topo, de modo que basta uma meia luz para parecer um visitante assustador; e um cesto de roupas sujas antes de chegar no guarda-roupas. O espaço entre estes objetos e a cama é pequeno, criando a necessidade de um cálculo muito preciso ao entrar pela porta, que abre como uma sanfona e também não é ampla. Basicamente, é o pior lugar da casa para fugir de um possível ataque de invasores, já que entrar correndo pode significar uma fratura no joelho e o material frágil da porta – policloreto de vinila (PVC) – a torna tão difícil de violar quanto a tampa de uma lata de refrigerante.

O teto é revestido pelo mesmo material, com uma lâmpada branca pendendo com fios a mostra, e o chão é de madeira – parquet, mais especificamente. As paredes são brancas, exceto aquela oposta a porta, que é tão rosa quanto uma festa de aniversário infantil com tema de princesas. O interruptor, ao lado da porta, tem um vidro a sua volta, mas com uma textura granulada que dá uma impressão de brilho de glitter.

É uma sexta-feira e anoitece, uma percepção que invade o quarto de várias formas. As vozes da vizinhança, geralmente mais estressadas, agora soam alegres, mais leves. A elas se misturam uma música calma com vocal destacado e o som de uma panela de pressão trabalhando. O cheiro de vários jantares sendo preparados vem com o odor forte de cebola, que se une com o cheiro velho do quarto que dificilmente abre sua porta barata ou sua janela antiquada – esta está escancarada agora.

Mesmo com a baixa qualidade dos objetos que compõem o cômodo, as texturas ainda são lisas e as cores parecem harmônicas. Tudo parece estar em seu lugar, mesmo o gaveteiro melancólico ou o colchão que não sabe se esconder, é como uma pequena comunidade que compreende sua conjunção, ao passo que seus membros compreendem seu espaço. Mesmo os sons e cheiros dos vizinhos se encaixam nesta ordem inconstante, mostrando que a conjunção harmônica se estende além do quarto para o todo que há ao seu redor. Talvez dançar ao som poluído da vida em comunidade não pareça uma péssima ideia e o medo de bater-se nas coisas some. Afinal, quando se compreende o espaço ao seu redor, ele se revela exatamente do tamanho que precisa ser.

Standard
Conto

Usado

– É aqui que tu dorme?

– Sim. Aqui. Sozinho! Não preciso de mais espaço que isso.

– Verdade, mas… – Olhou ao redor – Não acha um pouco poluído?

– Tá falando do cheiro?

– Não. – Coçou o nariz – Poluído visualmente.

– Ah, meio bagunçado?

– Talvez. Quer dizer, a cama tá bem bagunçada, mesmo. Mas to dizendo mais pela quantidade de coisas.

– É que eu sempre tenho preguiça de jogar coisas fora, ou só acho que vou usar um dia.

– Tipo esse livro sobre Apartheid? Porque, né, tu nunca vai ler isso.

– Na verdade… – Sorriu – Essa estante da escrivaninha só tem livros que eu já li.

– Sério? Legal. – Passou o dedo pelas lombadas – Mas quase não tem livro, é só mangá.

– Eu li mais mangás do que livros, de fato.

– De fato… – Andou um pouco pelo quarto e abriu uma gaveta – E esse gaveteiro? Deve tá cheio de tralha.

– É, tem muita tralha mesmo. Mas a tralha de um é o ouro do outro, né? – Deu uma risada encabulada.

– Não sei como um fone quebrado vai ser ouro, mas tudo bem… – Tentou fechar a gaveta, que emperrou – Isso é assim mesmo?

– Ela tem uma manha. – Se aproximou, segurou junto e fechou – Tenho que jogar esse gaveteiro fora, ele ocupa muito espaço.

– Ocupa mesmo, faz o quarto parecer menor.

– Isso me incomoda todo dia.

– Mas tem um lado bom…

– É, ele guarda bastante coisa.

– Não, em diminuir o espaço.

– É?

– Sim, a gente fica mais perto.

– Verdade… Tem um charme em lugares pequenos, né? – Sentiu um toque no rosto – são mais aconchegantes…

– E a cama?

– O que tem ela?

– Ela tem algum problema?

– Não, é a coisa mais nova desse quarto.

– Ah, que bom.

– Na verdade – Começou a ser empurrado pelo peito, andando de costas na direção da cama – a escrivaninha chegou depois, mas eu não sou o primeiro dono.

– Isso – Acariciou – te incomoda?

– Não! – Ofegou ao ser empurrado de vez para a cama – O quê? O que me incomoda?

– Não ser o primeiro dono. – Debruçou-se por cima.

– Não, não. – Respirou fundo – O que importa é que ela é minha agora. 

Standard