Crônica

Mente

I see friends shaking hands, saying ‘how do you do?’
They really saying ‘I love you’


Entre os superpoderes mais desejados pelas pessoas, a telepatia é um bastante comum. Poder aber com precisão o que o outro está pensando seria extremamente útil – embora provavelmente doloroso e constrangedor. Eu, particularmente, sempre preferi o oposto: que os outros soubessem exatamente o que eu estou pensando.

Para começar, isso mostra uma dificuldade de comunicação verbal da minha parte – é por isso que prefiro escrever -, mas também se dá por uma vontade de criar relações mais transparentes entre as pessoas. Ainda que eu não possa ler mentes, sinto que não sou o único que falha em esclarecer o que sinto, mas sim que há uma dificuldade geral do ser humano em comunicar seus pensamentos e sentimentos com perfeição. Existem muitas travas sociais que reprimem sinceridade plena, algumas que atrapalham a comunicação – como pessoas que preferem esconder dores, paixões ou desejos – e outras que servem para evitar que interações se tornem um caos de sentimentos variados.

Quando estamos em uma conversa casual, por exemplo, e uma frase, um movimento ou uma lembrança nos trazem um sentimento absolutamente profundo e transformador, não seria interessante para o prosseguimento da conversa que mudássemos o rumo e o tom do diálogo para manter a transparência; é mais simples que este pensamento seja reprimido.

Porém, mesmo quando o momento permite, me pego reprimindo certos sentimentos em minha mente e fantasiando que a pessoa a minha frente pudesse ler minha mente, para que eu não precise usar as palavras. Isso acontece, primeiro, por uma noção de que, uma vez que a ideia foje da mente, ela ganha vida própria e nunca se desenvolve da maneira desejada; mas há também um medo das consequências desta ideia.

A verdade é que vivemos, diariamente, em mentiras, seja fingindo interesse numa história chata, emulando polidez em momentos de mau humor ou disfarçando sentimentos para aqueles que amamos ou odiamos. A sinceridade – que viria com a telepatia – seria a queda deste véu, a revelação permanente dos sentimentos mais profundos, terríveis ou edificantes, daqueles com quem nos relacionamos. Isto – a verdade – é assustador, uma vez que derrubaria nossos castelos imaginários construídos com esperanças falsas, ilusões e todo tipo de mentira.

Este seria um mundo interessante de se viver, onde todos possam viver de forma honesta e mais consciente, sem esperar demais ou de menos dos outros, sabendo exatamente que tipo de pessoa cada um é, construindo relações mais saudáveis e mais equilibradas, com todos na mesma página. Por outro lado, ao mesmo tempo que isto resolveria conflitos baseados em mal entendidos, os conflitos ideológicos seriam constantes, já que não haveria mais como ocultar naturezas opostas e os inimigos se descobririam num trocar de olhares.

Não passa de uma fantasia, entretanto. Nossas relações precisam se resolver com as ferramentas que estão disponíveis, mesmo que estas sejam limitadas. Se a fala não transmite, talvez a arte seja a saída. Além disso, parte da beleza de uma boa relação interpessoal está na percepção e interpretação das sutilezas do outro – saber que um “eu te amo” pode ser uma frase vazia e um “como foi seu dia?”, uma declaração de amor.

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Lidar com eros

Há uma arte japonesa chamada Kintsugi; consiste em consertar objetos de cerâmica com uma mistura que leva ouro e preenche as fissuras com linhas douradas. A filosofia por trás desta arte é simples: O erro é parte de um processo de evolução, desde que esteja disposto a lidar com ele.

Eu participo de podcasts frequentemente, criados e publicados pelo site AoQuadrado (ouça). Numa explicação rápida, podcasts são conversas gravadas e editadas para entreter ou informar os ouvintes. Durante uma gravação, aconteceu algo simples que me trouxe muito o que pensar. Falávamos sobre algum assunto bastante trivial, quando fiz um comentário que pareceu errado – preconceituoso, no máximo, e polêmico, no mínimo – aos olhos dos meus interlocutores e o comentário acabou sendo cortado na edição.

Não vou, aqui, repetir o comentário ou reprovar a edição – eu compreendi e até concordei que poderia ser uma polêmica desnecessária e que desviaria a atenção do tema, que pouco tinha a ver com o comentário em si. Mesmo assim, foi algo que me gerou um conflito interno. Deveríamos apagar nossos erros, quando nos dada a oportunidade? Mais, deveríamos evitar algo pela possibilidade de estarmos errados ou pelo medo de críticas, reprovações ou ofensas?

Aparentemente, poucos se pergutam isso na intenet. Afirmações estúpidas online são regra, afinal. Elas vêm de usuários com imagens minúsculas como avatares, nomes sem sentido e a mesma fonte neutra no texto. Estes elementos, e a frequência deles, planifica os comentários destes usuários sem rosto, sem histórico e sem contexto. Mensagem e mensageiro se únem de forma tão homogênea, na maioria das vezes, que a opinião expressa numa única frase se torna uma filosofia de vida para o personagem que criamos na nossa cabeça. O pior: muitas vezes, o próprio usuário que deu a opinião abraça esta percepção simplista.

Assim, quando um comentário é proferido e alguém discorda de forma convicta, agressiva ou não, aquele que proferiu abraça sua opinião como parte dele, fundindo-se com suas ideias exatamente como aquele que critica faria. Cria-se, assim, uma arrogância que leva o indivíduo a se ver como um guerreiro que deve lutar até a morte em nome daquela afirmação pouco refletida e possivelmente superficial. O interlocutor toma a mesma posição, mas do lado oposto, e está posto um conflito que deveria ser de pessoas usando suas palavras para transmitir ideias, mas que, na verdade, é de pessoas presas por suas palavras escritas ou faladas, decididas em não aceitar seus erros.

Graças a esse fenômeno, qualquer comentário público na rede mundial não pode ser frívolo, mas absolutamente convicto e responsável, pois, pelo que se percebe, letras escritas e frases proferidas por aqui são como escrituras entalhadas em pedra, imutáveis, além de revelar a verdadeira identidade do mensageiro. Errar é um perigo que se deve evitar ao máximo nesta terra onde um comentário irônico num tweet aleatório pode acabar com a sua vida.

O caminho que encontramos para fugir disso é ocultar os erros, dos mais terríveis aos mais bobos. Usamos corretores ortográficos para evitar pequenos defeitos na digitação – tudo bem que ele mude “mao” para “mal”, pelo menos ninguém vai saber que esqueci do til – e opiniões sobre assuntos mais sérios são guardadas sob o pretexto de “evitar polêmica”. Isto muitas vezes é visto como humildade, uma compreensão dos limites do conhecimento do indivíduo, que não quer pisar num território que não domina completamente – e é um pensamento bem mais antigo que a internet, visto o notório “política e religião não se discute”.

A verdade é que o que falta é a verdadeira humildade, não esta artificial que existe apenas para manter ideias intáctas sob uma armadura de dogmas inquestináveis. É precisa uma humildade sincera para aceitar os erros cometidos; para entender que ideias não moldam o seu caráter, mas o contrário; e, principalmente, para se deixar errar e moldar-se pelo aprendizado que ele traz.

Embora muitos possam estar fazendo um favor aos olhos e ouvidos alheios ao não expôr suas ideias absurdas, isto danifica uma das melhores qualidades desta ferramenta incrível: a liberdade. Liberdade para falar, que deveria vir acompanhada da responsabilidade de ouvir e aprender com as oposições.

Soa utópico, claro, mas vale a tentativa. Se estivermos dispostos a ouvir opiniões contrárias e aceitá-las, sem perder totalmente nossa convicção, talvez possamos alcançar o verdadeiro potencial dos conflitos ideológicos que pipocam nos comentários de sites e blogs. Para isto, precisamos também saber repreender os erros alheios, evitar agressividade e demonização do outro, mantendo sempre em mente que certo e errado não está definido em detalhes em nenhum livro de regras, se trata de um conceito maleável e cheio de subjetividade.


Este texto não foi revisado, obviamente. 

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Às Vezes Eu Finjo Ser Cego

Todos pensamos, sentimos e fazemos coisas que são só nossas. Coisas só fazem sentido dentro da nossa própria dimensão interna. Claro, talvez outros dividam ideias e sensações conosco – e toda a frase que começa com “só eu que” está fadada a prepotência. Mesmo assim, independente de dividirmos experiências semelhantes, o modo como interpretamos e justificamos elas em nossas mentes é único, e há grandes chances de muitas destas justificativas serem confusas, ou até incompreensíveis, para nossos semelhantes. Por exemplo, eu gosto de fingir que sou cego de vez em quando.

Explicar de onde isso veio e porque eu faço é tentar explicar objetivamente um processo subjetivo – felizmente, este é o papel da escrita. Cegueira, além de uma deficiência, é um conceito simbólico. Seres humanos sempre foram muito visuais e isto tornou nosso mundo muito baseado em visibilidade. Cores, formas, tamanhos e outros elementos visuais são vitais para a experiência humana “normal”, levando a sociedade a criar, destruir, admirar e discriminar baseada nisso. Ver e distinguir o que vemos não é só uma das nossas maiores habilidades, mas também uma particularidade intrínseca ao ser-humano.

Podemos ouvir diversas teorias perfeitamente embasadas sobre um fato, mas apenas aceitamos estas como verdade quando podemos ver. Mesmo que a prova seja cabal, não há o verdadeira peso enquanto não esteja diante de nossos olhos. O menino refugiado da Síria que foi fotografado morto na praia nos mostrou visualmente o terror da guerra e trouxe uma compreensão mais ampla para o problema dos refugiados, assim como inúmeras outras fotos famosas que mudaram a história. Por esse motivo que Carl Sagan usou uma fotografia tirada do espaço para pautar seu discurso sobre o pálido ponto azul em que vivemos – e talvez por isso que eventos que não podem ser resumidos em uma imagem, como aquecimento global, enfrentam tanta resistência em serem aceitos como fatos.

Ver é saber.

Meu interesse pela cegueira não veio desta abstração, porém. A verdadeira causa foi, se minha memória está correta, a cegueira literal em diversos desenhos da minha infância. Grandes guerreiros cegos sempre me fascinaram, pois revelavam uma maneira diferente de experimentar a vida – ou de meter a porrada nos vilões  – e me apresentavam a ideia de que o mundo não é apenas o que é, mas como o experimentamos. Shiryu, Toph, Demolidor, Kenshi e, vou confessar, Jatobá da novela América (ele não era muito de lutar, mas tinha um cachorro bem da hora) me empolgavam quando entravam em cena porque eles sentiam o mundo ao seu redor de forma diferente e demonstravam isso em suas ações.

Então, pelo mesmo motivo que as vezes eu tento usar a mão esquerda, mesmo sendo destro, eu comecei a treinar para caso algum dia eu precisasse lidar com uma vida sem visão. Com o tempo, percebi que era uma experiência bem mais divertida do que útil. Diferente de deficientes visuais que perderam sua visão para sempre, eu poderia desativar e ativar de volta a minha visão, atravessando a fronteira das formas de experimentar o mundo livremente. Assim, comecei a tentar ir no banheiro durante a noite sem ligar as luzes, tomar banho de olhos fechados e tentar sentir a textura das coisas em vez de apenas observá-las. Isso me revelou algumas noções interessantes.

Primeiro, o óbvio: A visão nos entorpece diariamente, nos faz esquecer de sentir de outras formas. Os sons se tornam ruído branco, o toque é raro e os cheiros só se revelam nos extremos – o paladar ainda é potente porque, afinal, comida é coisa séria. Fechar os olhos, embora seja um simbolismo metafórico para ignorar a realidade, pode ser muito proveitoso para entendermos o mundo por um novo ponto de vista. E o mais importante, essa compreensão expandida não vem apenas enquanto estamos na escuridão de nossas pálpebras.

A percepção mais interessante que tive foi abrir os olhos depois de um longo tempo de cegueira deliberada. Há muita verdade na ideia de que só percebemos plenamente o valor de algo quando perdemos; e experimentar o mundo visível depois de escondê-lo da visão é fascinante. Quando fechamos os olhos e tentamos agir, precisamos reconstruir o que há ao nosso redor dentro da mente. Isto é, lembrar o tamanho dos ambientes, compreender a distância entre as coisas e seus formatos, além de, mesmo que involuntariamente, imaginarmos também as cores, a luminosidade e todos os elementos visuais que estamos acostumados a simplesmente ver.

Experimentando na prática algo parecido com a teoria dos dois mundos de Platão: precisamos tentar recriar o mundo dos sentidos em nossa mente para interagir com ele da melhor forma possível – isso é, não derrubar o sabonete no banho porque encontrar ele no chão do box de olhos fechados é uma tarefa e tanto – mas tudo que conseguimos é uma projeção de realidade cheia de falhas, uma espécie de mundo das ideias. Isto sempre ficou muito claro quando eu finalmente voltava a enxergar – por trás dos meus olhos vendados, o ambiente sempre parecia mais escuro ou mais claro, os espaços muito maiores e, de alguma forma, tudo parecia mais bonito. Claro que as coisas na minha cabeça tinham formatos ideais – eu nunca imaginei o sabonete com a superfície amassada pelas inúmeras quedas ou com pelos humanos grudados – só que a realidade e suas imperfeições naturais ganhavam um tom fantástico quando (re)reveladas, como se o mundo em si nunca pudesse ser plenamente imaginado em todos os seus detalhes complexos.

E o mais interessante: este fascínio pode existir até mesmo com a visão, pois mesmo com ela nós ainda não conseguimos absorver o universo em sua completude. Não só não compreendemos eventos que duram milhões de anos ou milésimos de segundos, mas sequer conseguimos distinguir todas as cores que nos cercam – basta notar que abelhas enxergam mais que o dobro de cores do que humanos – e isto pode ser traduzido para temas mais mundanos, e mais úteis, como relações interpessoais.

Eu acredito que cada pessoa seja um universo de proporções semelhantes a este em que vivemos, cheias de complexidades e particularidades e quando nos relacionamos com alguém, seja a menor das interações, experimentamos o universo do outro e, enquanto não nos aproximamos o suficiente, permanecemos com os olhos vendados. Em uma era onde conexão se tornou primeiro um termo tecnológico e depois um sinônimo de vínculo, a artificialidade do contato interpessoal, exemplificado pelos chats, cria relações onde todos os lados estão vendados – e isto está longe de ser um desastre social como alguns afirmam, muito pelo contrário. Da mesma forma que brincar de cego pode proporcionar novos tipos de interações e interpretações com o mundo, o contato artificial pode trazer novas formas de se conectar com pessoas, permitindo que tom de voz, expressões corporais ou aparência física não se tornem barreiras ou distrações para o intelecto e outros elementos internos do interlocutor.

O problema da conexão artificial está quando esta se torna a única forma de conexão – como ficar de olhos vendados para sempre. Nesse sentido, encarar alguém pessoalmente é como abrir os olhos e experimentar algo de uma maneira completamente nova e particular, abrindo uma nova seção do universo que é cada indivíduo. Estes indivíduos, entretanto, são tão vastos e incompreensíveis quanto nossa realidade e tentar entendê-los por completo é uma tarefa tão provável quanto alcançar os limites do universo. O mais provável é que para sempre só possamos vislumbrar, nunca contemplando em absoluto o que o outro é, o que ele ou ela pensa, sente e faz. Ainda assim, não há experiência mais fascinante do que tentar.

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Eu Odeio Escrever

Eu odeio muita coisa. Algumas coisas de forma desproporcional, como talheres caindo no chão enquanto eu estou comendo. A interrupção da minha refeição e a ideia dos resquícios de comida no talher absorvendo a sujeira do chão são os principais motivos que fizeram o som do metal despencando se tornar algo tão irritante que, mesmo que não seja o meu talher ou eu nem esteja comendo, minhas mãos se fecham em punhos e meus dentes ficam cerrados automaticamente. E nas muitas vezes em que realmente são os meus talheres a cair, eu considero enfiar a faca no meu pescoço antes de pensar em trocá-la por uma limpa.

Há inúmeros outros ódios inerentes ao meu ser, com intensidades e lógicas variantes: histórias ambientadas em cenários de RPG, acusações falsas de que estou mentindo, meu amigo Gustavo Boxa, fones de ouvido que só funcionam de um lado, pessoas que não permitem que tirem seus celulares da tomada enquanto estão carregando porque vai “estragar a bateria”, entre outras desgraças. Só que o ódio que mais me frustra é, sem dúvida, meu ódio pela escrita. Não falo apenas do ato de escrever, mas a necessidade de escrever – e escrever bem – que eu sinto diariamente.

Eu não sou um escritor particularmente talentoso, embora esteja acima da média da maioria da população. Meu vocabulário não é vasto ou elaborado e meu processo não é rápido em comparação com os profissionais; não consigo ser sucinto, tampouco atinjo a verborragia dos textos intermináveis de grandes escritores. Mesmo assim, esta, provavelmente, é minha melhor forma de comunicação. Sempre sonhei em ter talentos em áreas mais extravagantes como desenho, oratória ou música, mas sempre me voltava para escrita quando queria transmitir uma ideia – diabos, estou escrevendo nesse momento sobre como eu odeio escrever.

Nunca consegui saber ao certo o que me trouxe para essa armadilha. Talvez se eu tivesse começado a desenhar minhas ideias no passado, em vez de simplesmente escrever, hoje eu seria um grande ilustrador. Minha aposta mais confiante para explicar este erro é a pura e simples preguiça, pois desenhar requer esforço físico direto – não se pode treinar ilustrações sem ter um papel e um lápis na mão – e com a escrita não é exatamente assim. Sim, o mandamento primordial para qualquer escritor decente sempre é “Escreva”, mas boa parte do trabalho de um mestre das palavras é observar o mundo para poder descrevê-lo. Pensar, minha atividade preferida, já serve como uma espécie de treinamento para o escritor; imaginar metáforas, tentar descrever o indescritível, questionar o que nos é dito e como é dito, etc.

É isto que me trouxe até aqui: Eu adoro esta parte que ocorre dentro da minha cabeça e preciso fazer algo com minhas ideias e pensamentos, e e escrever se tornou minha válvula de escape. Com o perdão da analogia escatológica, se expelir minhas ideias fosse como defecar, a escrita seria meu ânus. O único problema é que eu estou com um caso forte de hemorroidas.

(Já estou arrependido desta metáfora, então, irei modificá-la – mas não vou apagá-la porque seria injusto com o fluxo de consciência que é este texto.)

Minha relação com a escrita é parecida com minha relação com lavar louça. Eu não detesto lavar a louça, não é uma tarefa que me irrita enquanto eu faço, da mesma forma que não estou irritado escrevendo agora. O que me irrita em relação a louça suja é ter de lavá-la, saber que, caso eu não o faça, logo não haverão mais louças para serem usadas. É como ser escravo de regras que eu aceitei, estar preso a um contrato que assinei. Não seria tão difícil usar apenas pratos, copos e talheres descartáveis – seria, inclusive, o motivo perfeito para nunca mais juntar talheres e meu chão estaria coberto de garfos e facas de plástico – ou simplesmente comprar uma máquina de lavar louça. Mesmo assim, não seria a mesma sensação. E eu quero essa sensação.

A verdade, que já deve estar clara a essa altura, é que eu amo e odeio escrever pelo mesmo motivo: Eu preciso fazê-lo. Ter uma ideia e vê-la pronta são duas sensações muito satisfatórias, mas isto depende completamente do todo o processo que está entre essas duas etapas e, embora processos já sejam geralmente desagradáveis, o processo de escrita está entre os mais frustrantes. Trata-se de uma conversa onde o interlocutor é invisível e que despende atenção absoluta de quem escreve; algo que revela a analogia coprológica muito mais coerente do que a da louça, já que esta última não demanda uma concentração tão restrita.

Além de tudo isso, existem as questões práticas. Primeiro, a leitura não é um prazer comum do público geral e tornou-se quase uma tarefa, e me incluo nisso com minhas poucas dezenas de livros lidos na vida. Então, além do interlocutor ser invisível, há sempre a chance dele ser inexistente. Depois, a necessidade de escrever bem, o que envolve muita leitura, estudo e – suspiro – revisão; e eu confesso, envergonhado, que algumas vezes pulo ou negligencio estes passos – me apaixonei pela escrita por preguiça, afinal.

E a pior parte é esta. Terminar o texto e tentar entender o valor do que foi escrito. Por um lado, consegui, de uma forma ou de outra, tirar uma ideia da cabeça e produzi algo para o mundo; por outro, apenas descrevi meus pensamentos pessoais, que talvez só importem para mim, da maneira mais fácil que encontrei, sem nenhum tipo de planejamento ou estruturação digna de nota. Existem algumas ocasiões em que isso é recompensador, com encerramentos inspirados que fecham o texto como um círculo perfeito, recuperam alguma ideia jogada ao longo do texto para deixar o hipotético leitor com uma sensação de completude. Mas não é o caso deste. Este texto terminará com essa metalinguagem preguiçosa.

Preguiçosa… Até que não é um final tão incoerente assim. Eu falei de preguiça ao longo do texto, afinal.

Olha só, por isso que eu amo escrever.

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